A corrida das stablecoins no Brasil

Especialista em inovação financeira, Bruno Diniz traça um panorama das stablecoins no país e fala sobre seu contexto no ecossistema cripto

* Artigo do autor Bruno Diniz, originalmente publicado no portal noomis neste link.

Ao longo da última década, presenciamos a evolução do ambiente cripto desde seus primeiros passos, com o Bitcoin, passando por vários desdobramentos à medida que parte do seu conceito e tecnologia (que se tornou conhecida como Blockchain) foram sendo aplicados para diferentes finalidades. 

Assim, logo apareceram criptoativos que ficaram conhecidos como altcoins, os quais exploravam diversos usos de caso e possibilidades de resolução de problemas. 

No entanto, muitos projetos de altcoins acabaram ficando pelo caminho com o passar do tempo por não conseguirem cumprir suas propostas iniciais. Ainda assim, esse movimento foi bastante importante no desenvolvimento e popularização do conceito de criptoativos ao redor do mundo.

Nesse processo de expansão do universo cripto, vimos também o surgimento das stablecoins em meados da década de 2010, que são instrumentos atrelados à um ativo do mundo tradicional, podendo ser uma moeda fiduciária única, uma cesta de moedas ou mesmo uma commodity, por exemplo. 

As stablecoins apareceram como uma alternativa para escapar da volatilidade de criptoativos como o próprio Bitcoin e demais altcoins (servindo como instrumento de hedge), bem como para facilitar a transferência de saldo entre corretoras. 

Uma das primeiras stablecoins que surgiram foi o Theter, que a princípio mantinha uma paridade de 1 para 1 com o Dólar Americano, sendo negociada inicialmente na corretora Bitfinex em janeiro de 2015. 

Apesar de ter sido envolto em diversas polêmicas, que incluem a acusação de não possuir reservas suficientes em dólar como lastro, o Theter é uma das maiores stablecoins do mundo, juntamente com a USD Coin e o True USD (todas também indexadas ao dólar americano).

Em 2019, o mundo foi surpreendido com o anúncio do Libra, um criptoativo capitaneado pelo Facebook que representava uma evolução do modelo de stablecoins até então. 

Em um primeiro momento, o projeto contava com gigantes da tecnologia e do mundo financeiro como apoiadores dessa stablecoin lastreada em uma cesta de ativos financeiros globais. 

Contudo, devido seu escopo, empresas apoiadoras e grandiosidade, muitos bancos centrais mundo afora passaram a questionar os potenciais impactos da Libra na economia. 

Assim, alguns países condenaram o seu desenvolvimento, algo que acabou por tirar força do projeto e promoveu uma debandada de seus principais apoiadores (empresas como Visa, Master, Paypal, entre outros) que temiam criar indisposições com reguladores. 

O projeto Libra ainda continua vivo e será lançada em breve, contudo com um escopo de atuação mais restrito do que havia sido imaginado.

A reação dos governos e o surgimento das CDBCs

Um efeito colateral desse processo de desenvolvimento do Libra foi a retomada mais intensa de debates dos bancos sobre a criação de versões digitalizadas de suas próprias moedas, conhecidas como CBDC (Central Bank Digital Currency, algo como “Moedas Digitais de Bancos Centrais”). 

Países como Coréia do Sul, Bahamas, China, dentre outros, estão avançando com seus planos de criação de suas CBDCs, algo que parece inevitável para o planeta nos próximos anos, a medida que caminhamos para um acelerada desmaterialização do dinheiro físico (também impulsionada pela crise de saúde trazida pelo Covid-19, que tem o papel moeda com um dos seus vetores de transmissão).

Ao contrário das stablecoins e dos criptoativos tradicionais, as CBDCs não são de propriedade privada. Elas são criadas, mantidas e de propriedade de bancos centrais, podendo ser voltadas ao varejo (para uso dos cidadãos em operações cotidianas) ou ao atacado (em remessas realizadas entre grandes instituições).

O cenário brasileiro

No Brasil ainda não há nenhuma notícia concreta sobre o desenvolvimento de uma CBDC pela autoridade monetária local. 

Porém, no sentido de reduzir a circulação de papel moeda no país, digitalizar e baratear as transações financeiras entre pessoas e no ponto de venda, o Banco Central lançará até o final do ano o Pix – sua infraestrutura de pagamentos instantâneos. 

Mesmo não estando ligado ao conceito das CBDCs e não empregando a tecnologia Blockchain em seu projeto, o Pix representará um importante passo para o ambiente de pagamentos no Brasil, atualizando e adequando seu funcionamento para os tempos atuais.

Já em relação a stablecoins indexadas em Real, o Brasil conta com 3 diferentes projetos no momento, que começam a desenhar o cenário competitivo que veremos nos próximos anos.

Dentre esses projetos temos:

BRZ

Criada pelo empreendedor Thiago César e lançada em maio de 2019, essa stablecoin tem sua emissão realizada via instituição Suíça nas praças de Malta e Bahamas e possui gestão de colateral realizada no Brasil através de uma outra empresa criada com esse propósito. 

Um dos principais objetivos do BRZ, segundo seu criador, é endereçar as dificuldades dos estrangeiros em acessarem o mercado nacional, e vice-versa. Para futuro, o projeto busca Integração com outros meios de pagamento, além de entrada em plataformas de games estrangeiras e no mercado de recarga de cartão e wallets. 

Onde é negociado: O BRZ está listado em Exchanges estrangeiras como a Bittrex, BitForex, FTX, Advcash, ZBX, Simex e Transfero. No Brasil, pode ser negociado na NovaDax, Profitfy, Bitpreço, Union Trade Capital, 3RZ e Bizanc.

RAS

Criada no segundo semestre de 2019 pelos empreendedores Jaime Nascimento e Rodrigo Cremer, teve seu nascimento no mercado de mesa OTC (onde são negociadas grandes quantidades de criptoativos), para facilitar as transações de seus clientes que buscavam operar em outras praças fora do período bancário (de segunda à sexta) ou nos finais de semana. 

Outro uso frequente do RAS é no pagamento de contas e recarga de cartões, operacionalizados através de parcerias e integrações com empresas como a Stratum, Kamoney e Atarpay. A visão de futuro dos seus fundadores é de irem além de um projeto de stablecoin e se tornarem uma solução completa de meios de pagamentos.

Onde é negociado: O RAS está listado em exchanges nacionais como a Stratum e Bitpreço e em mesas de OTC como Nox Bitcoin e Revo Capital.

Real Virtual

Stablecoin criada por Rodrigo Batista e Thomaz Teixeira, sendo emitida pela empresa nTokens na rede Stellar. Os registros digitais são totalmente lastreados em depósitos sob custódia de instituições financeiras reguladas, sendo os tokens auditados e sua disponibilidade confirmada na instituição financeira de custódia.

Onde é negociado: O Real Virtual é listado e negociado como stablecoin na exchange Stellar X.

Os próximos passos

O ecossistema das stablecoins ainda está em sua infância e tem muito para evoluir no Brasil e no mundo, conforme vemos uma aceleração de diferentes iniciativas voltadas à tokenização e uma maior aceitação destes tokens por diferentes plataformas.

Aspectos relacionados à segurança e compliance são muito importantes para qualquer player que tenha interesse em adentrar esse terreno, e uma ampla listagem em Exchanges e mesas OTC nacionais e internacionais, além da presença em wallets populares, podem fazer a diferença na dominância de uma determinada solução. 

O mercado é, definitivamente, amplo e promissor… e a corrida já começou aqui no Brasil.


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